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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

" ... baby, we'll be fine ... "



" ... baby, we'll be fine ... "

A noite está quente e a lua ilumina o céu e as pessoas. Os seus corpos balançam ao som da música que toca lá ao fundo, em cima de um palco. Em uníssono cantam e gritam, quando é preciso. Libertam fantasmas. Choram angústias, arrependimentos. Choram alegria e paixão. Os corações explodem num turbilhão de sentimentos. Há suspiros espalhados pela multidão.
Neste exacto momento nada mais importa. Aqui tenho tudo o que quero: a minha música, com as palavras que me enchem a alma, e a companhia certa. A comunhão que se vive é gritante de tão palpável que é. Os braços estão estendidos em direcção às estrelas e os punhos cerrados em jeito de revolta. Tudo é perfeito.
No final quer-se mais, sorri-se. Trocam-se palavras, cansadas é certo, mas palavras carregadas de emoção. Nada mais importa. Só os beijos que vêm depois.


" ... baby, we'll be fine ... " 05/08/10

sábado, 24 de julho de 2010

Gestos, aqui e ali


Há coisas sem sentido. Há coisas mesmo sem sentido nenhum. Há coisas boas e há coisas más. Há os pequenos pormenores, os mais simples, e há os grandes gestos. Há de tudo. Mesmo tudo.
Não sei quais são os significativos mas sei aqueles que me interessam. Sei quais são aqueles que me fazem sorrir ou me fazem desatar às gargalhadas em plena rua. Esses estão guardados numa caixinha ou em mim, seja na memória ou no coração. Não me apetece escrever sobre mais nada, agora. Isto chega-me. Só tenho um desejo, que cheguem muitos mais momentos como estes que tenho vivido ultimamente.


" Gestos, aqui e ali " - 24/07/10

sábado, 19 de junho de 2010

Malmequer


Calcei os sapatos e fiz-me à estrada, sem antes dizer adeus à minha mãe. Parti em direcção à aldeia. O sol beijava-me a cara e dava-me as mãos. As oliveiras seguiam-me passo a passo e o gado pastava junto ao caminho de terra que percorria em grande azáfama. Quando cheguei à tasca do Sr. Manel esta já estava repleta e, num dos cantos, estava sentada a Maria. A Maria sempre fora a minha paixão e sempre fora, também, a minha melhor amiga. Desde a primeira classe que eu e a Maria brincávamos juntos, estudávamos juntos. Até morávamos ao lado um do outro. Sempre os dois. Nunca me vou esquecer do dia em que me apaixonei por ela. Foi num dia abrasador de Agosto, tal e qual como este. Foi num dia em que fomos pela primeira vez ao lago dos canaviais. Ela, sem medo, entrou na água, mergulhou e desapareceu. Durante breves segundos deixei de ver. De repente, surgiu mesmo diante de mim, com os seus longos cabelos castanhos a descerem-lhe pelos ombros, com um sorriso que, rapidamente, me atingiu. Não consegui desviar o olhar. Parei. Fechei os olhos. Abri-os. E ela lá continuava. No mesmo sítio, também a olhar para mim. Esbocei um sorriso e sentei-me à beira da água enquanto ela nadava livremente. Aquele dia despertou-me. Até aí nunca tinha visto nada igual. Não sei se foi o local, se foi o sol ou se foi a água, mas soube que me apaixonara.


«Sabes quem é que vi ontem?»
«Diz...»
«A Dona Ernestina.»
«Ela ainda tem a herdade?»
«Não sei. Talvez os filhos tenham ficado por lá. Sabes, nunca te disse isto, mas foi naquela herdade, lá no lago, que me apaixonei por ti. Na primeira vez que lá fomos.»
«A sério? Lembro-me bem desse dia.»
«Desde esse dia, dessa tarde, que estás sempre comigo, mesmo quando não estás e eu estou em silêncio, sozinho. Custa-me crer que só me declarei anos mais tarde. Mas digo-te, durante esses anos, até ao dia em que te beijei pela primeira vez, naquele mesmo lago, num dia quente de Verão, o que sentia nunca desapareceu. Sonhei sempre contigo, escrevi-te, li-te. É tão bom estar hoje contigo.»


E agora que foste embora, que faço? Fecho os braços e os olhos? Nem consegui dizer-te adeus, nem dar-te um beijo daqueles tão nossos. Não sei para onde foste, não sei qual foi o teu destino. Só sei que me deixaste aqui sozinho, no meio destes malmequeres e desta pastagem.
A noite está a cair. De ti tenho o reflexo na água deste lago e o teu cheiro e o teu sorriso e a tua imagem, neste mesmo sítio, de há uma década atrás. Partiste. Não dissemos adeus, não te senti envolvida nos meus braços, não senti o aroma dos teus longos cabelos castanhos.
Se me quiseres visitar sabes que vou estar por aqui, neste lago. Vou estar debaixo de um sol abrasador e de uma lua cheia. Vou estar entre estas oliveiras e entre o barulho dos grilos. Ao nascer do sol serás o meu desejo e quando este se pôr vou dizer «Até amanhã».


" Malmequer " - 23/06/10

terça-feira, 30 de março de 2010

Beco Bento de Jesus Caraça


Hoje fui a casa da minha avó. Decidi ficar lá mais tempo do que o normal e sentei-me nuns degraus junto à porta. Aqueles degraus são os mesmos onde, há muitos anos atrás, brinquei com carrinhos, ao berlinde e onde passei grande parte da minha infância. Continuam iguais, o tempo não passou por eles, por mim sim, passou. Recordo aqueles momentos com um sorriso nos lábios, pois, ensinaram-me muita coisa, mesmo que ainda não tenho descoberto tudo. Lembro-me de ficar sempre sujo e cansado, depois de correrias e futeboladas. O cheiro daquele beco ainda faz parte do meu ser e ,por vezes, desejo brincar ali mais uma vez, por uma última vez. Só mais uma. Lembro-me, especialmente, de uma tarde de Verão. O sol, abrasador, queimava. Eram 15 horas, talvez. Lá em baixo, ao pé do jardim do mercado, ouvi, e vi, o meu avô a chamar-me. Abalei a correr, e quando lá cheguei ele disse «Luís, vamos até ao café do Simão comer uma sandes de carne assada». Nada disse. Apenas sorri como quem diz «sim» com um simples sorriso. Acho que aprendi a sorrir nesse dia. Claro que não foi a primeira vez que sorri, mas foi a que me deu a conhecer o mundo dos sorrisos. Onde se vê e se ganha esperança. Onde nos curamos dos males e desavenças. Onde nos apaixonamos. Onde amamos. Onde, depois, morremos.


" Beco Bento de Jesus Caraça " - 30/03/10